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12 novembro 2017

Não faz mais diferença


O medo é uma parede socialmente construída para as mulheres e talvez leve anos conseguir começar a derrubar tudo o que nos cerca.

Fico me vigiando, policiando, uso a técnica que os budistas me ensinaram, a prática da auto-correção, tento não sentir medo, mas de repente parece que as coisas escapam da minha mente.

Me chamaram para apresentar um trabalho e um pagamento foi combinado.
Chegando no lugar me informaram que houve uma confusão de datas, uma sucessão de erros e só iriam me pagar metade do combinado, por um equívoco causado pelas pessoas que tinham feito o acordo.

Quando isso foi dito eu estava em uma sala, com outras cinco mulheres, que também estavam apresentando seu trabalho. Na mesma hora pensei em levantar e dizer que aquilo não me parecia certo, não era meu problema se tinham errado nas datas ou na logística, tinham que me pagar o combinado. Mas logo me segurei, presa a um trauma de infância e um inferno de adolescência, às vezes que me levantei e disse ''isso ou aquilo não está certo'', escurei que era problemática, briguenta e difícil de conviver.

Isso criou mágoas na minha alma porque eu não me sentia tão ''difícil'' assim, mas cada vez que me colocava escutava a mesma coisa.

Pensei que se reclamasse naquele momento sobre o pagamento, ganharia a má vontade de todos, e eu ainda nem tinha apresentado meu trabalho, logo seria taxada de como aquela que cria confusão.

Fiquei quieta e apresentei o trabalho, mas na saída, por uma dessas coincidências, as seis mulheres, todas nós, pegamos o mesmo elevador. Uma delas parecia aborrecida e perguntei se não tinha gostado do trabalho, me respondeu que sim, mas estava frustrada com o dinheiro, porque não recebeu o combinado. Perguntei a ela porque não disse nada, se tinha reparado que tinha algo estranho, e ela respondeu:


-E vou pagar de louca sozinha? Fiquei com medo, se uma de vocês tivesse dito algo, eu apoiaria, mas quando vi todas em silêncio, achei melhor não dizer nada.

Outra comentou a mesma coisa, ficou irritada com a quantidade menor, quis questionar, mas pensou que seria taxada de ''cri-cri'' e isso poderia azedar contratações futuras.

Todas tínhamos um perfil em comum, com informações suficientes sobre como se defender nesse mundo machista e se posicionar, mas todas ficamos congeladas, tivemos a mesma ideia, se abrimos a boca e falamos que não estão sendo honestos, seremos taxadas de ''conflitivas'' e cortadas no próximo trabalho.


Já conversando com calma no elevador, chegamos a mesma conclusão. Quem contratou deve ter pago a quantidade mencionada, mas atravessou alguém e o dinheiro foi reduzido, aquelas curvas que acontecem em países como o Brasil. E então começamos a ter mais raiva da situação, ficamos quietas por medo de começar uma confusão, mas fomos roubadas na cara dura!

A conversa se prolongou para fora do elevador, levou uns quarteirões a mais, porque virou uma montanha de russa, começou com a sensação de não querer incomodar, para depois ter se arrependido de não ter dito nada, até perceber que a pessoa que nos roubou se favoreceu do nosso silêncio. E a conclusão de todas foi a mesma ''se eu soubesse que iria passar tanta raiva, tinha dito um monte''.

Pois é. Mas ficamos presas ao medo social, aquele que nos tortura desde criança, que julga as mulheres que dão ''escândalo''.

É uma luta interna gigantesca, porque ao mesmo tempo que sabemos que temos que nos posicionar, estamos cientes que o mundo não mudou e muitas vezes, quase sempre, falar é um perigo, coloca a mulher na linha de tiro.

Todas ficamos chateadas com nós mesmas, decepcionadas de ver que nos demos conta de uma situação e não reagimos a ela, porque tivemos o mesmo medo, o mais bobo de todos, de sermos chamadas de ''complicadas''.

Pensei o mesmo que todas, já que era para perder dinheiro, pelo menos deveria ter me posicionado, até porque se fosse ao contrário, ou seja, eu cancelando o compromisso com a empresa, eles não seriam tolerantes.

Tudo isso são cordas do patriarcado, que sabe o peso do seu julgamento e seu poder. Eu sabia que se reclamasse do pagamento, me cortariam para o próximo trabalho, mas isso não justifica meu silêncio, meu medo nem era ser cortada do próximo trabalho, mas de pegar uma fama de ''causadora'', que já tive em alguns lugares e sempre me prejudicou.

Levei anos para entender que essa fama de ''vai aprontar'' é direcionada a todas as mulheres, é um mecanismo para calar a todas, caso alguma se levante e fale.

E não é só nos trabalhos que isso acontece, também na vida pessoal, com namorados e família, todas as mulheres que abrem a boca para dizer o que pensam ou reclamar, logo são taxadas de ''ovelhas negras da família'' ou a ''briguenta''.

O fato é que esse medo criado tem funcionado, feito que milhões de nós recuemos, intimidadas pelo o que pode acontecer.

Mas o pior de tudo não foi o silêncio, nem o dinheiro roubado, foi a sensação que todas tivemos de que falhamos com nós mesmas, nos decepcionamos, a raiva de ficar quieta, o ódio de ter aguentado algo que não era necessário.

Isso foi o pior do dia, da semana, do mês. Saber que caímos (de novo) na armadilha do medo, o pânico de não querer se ''queimar'' e esquecemos o mais importante, algo que já deveria estar tatuado na nossa pele: não importa o que fazemos ou deixamos de fazer, somos julgados da mesma maneira e levamos todas as etiquetas possíveis, ficamos quieta para não ''causar'' e perdemos dinheiro, mas não seremos chamadas pela empresa de novo porque já nos roubaram uma vez e não vão se arriscar a chamar de novo, ou seja, deu nas mesmas. Se tivéssemos reclamado na hora sobre o dinheiro, talvez eles teriam percebido e evitado um escândalo, mas ficamos quietas e perdemos o dinheiro e ficamos com raiva.

Tento lembrar disso todos os dias, não importa o que eu diga ou faça, para um mundo patriarcal sempre vou ser uma bruxa histérica, fora do padrão, que anda pelas beiradas do sistema. Posso fingir ser outra coisa, ainda assim serei criticada e julgada.

E talvez exista liberdade nesse julgamento, porque já que estamos devidamente cadastradas, já fomos julgadas e condenadas, então quer dizer que somos livres e podemos fazer o que tivermos vontade, porque o julgamento já saiu, não faz diferença o que fizermos agora.

A nossa margem de manobra é essa , a certeza de que já nos julgaram, então vamos esquecer essa parte e fazer nossa vida do nosso jeito.


Iara De Dupont

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