ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

NOVIDADE!

NOVIDADE!

Nota:O formato PDF dos livros acima pode ser acessado em qualquer plataforma, inclusive Windows, Mac OS e plataformas móveis como Android e iOS para iPhone e iPad.

Os posts mais lidos viraram livros e não estão mais disponíveis no blog.

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

05 novembro 2015

Somos o mar


Quando olho minha infância me surpreende ver como havia tanta ignorância. Existia sempre um drama no ar relacionado as minhas primas, nós não tínhamos o mesmo Natal que meus primos. Eles sempre estavam juntos, se divertiam e dividiam seus brinquedos, já as primas brigavam, uma queria a boneca da outra e começava um drama que se repetia todos os anos. Também nos pediam para ajudar a colocar a mesa e outra briga dava início, ninguém queria.

E lembro de frases ''meninas são assim, se odeiam entre elas'', ''essas primas quando se encontram só dá briga'', ''é porque fulana é invejosa, beltrana é egoísta e a outra sempre quer a boneca da irmã''.

Uma linha marcou minha infância e juventude ''mulheres se odeiam''. Eu não via isso com minha mãe e tias, nem suas amigas, mas meu pai dizia que todas elas fingiam e se odiavam, porque mulheres ''querem que todas morram''.

Guiada por essa frase tive dias difíceis no teatro, eu até conseguia fazer algumas amizades, mas mantinha a distância para evitar brigas e conflitos. 

Minha vida pessoal confirmou algumas teorias, uma amiga muito próxima se encantou com meu Romeu e foi para cima. Vivi isso algumas vezes e me vi obrigada a pensar que tudo o que era dito tinha um fundo de verdade, o mundo era cheio de ''mulheres vadias''.

Depois de uma briga com um amiga, por algum motivo que nem lembro, a moça que trabalhava lá em casa me disse ''é melhor não ter amigas, assim você não pega macumba''. Eu não entendi e ela disse ''Você já viu homem fazendo macumba pra mulher? Não existe! Quem faz macumba e joga mal de olho é mulher, melhor ficar longe''.

Me diziam que mulheres eram péssimas amigas, invejosas e sempre esperando o tempo certo para puxar o tapete.

Nunca sentei para fazer a conta. É verdade que algumas amigas foram sacanas, mas também tive péssimos amigos, então fecharia dizendo que fui sacaneada tanto por homens como por mulheres, na mesma proporção. Mas sendo justa com a matemática tenho que dizer, não tenho nenhum episódio de abuso relacionado a mulheres, nunca me passaram a mão, nem se aproveitaram, mas não posso dizer a mesma coisa dos homens....

Minha vida só mudou e transcendeu tanta ignorância quando comecei com este blog, primeiro escrevia sobre síndrome do pânico, mas um dia resolvi contar sobre um relacionamento abusivo e de repente o blog deu um giro, outras questões relacionadas as mulheres entraram aqui e tudo mudou. 

Antes do blog meu mundo era coberto de gelo e silêncio, de coisas que eu jamais contaria, mas comecei a perceber que tinha espaço para fazer isso, recebia emails de mulheres contando histórias parecidas e me dando apoio. Isso se estendeu ao meu Facebook e a outras redes, depois de anos de congelamento social percebi que existiam centenas de mulheres como eu, que também cresceram presas à ideia de que todas ''nos odiamos''. Percebi que tudo era mentira, cresci cercada de ignorantes, de pessoas limitadas, que alimentaram um ódio que nunca existiu.

E tudo isso teve um preço muito alto, tenho vários primos e o relacionamento entre eles chega a ser comovente, se cuidam, protegem e se amam incondicionalmente, já as primas ainda mantemos uma distância cordial. Perdi parte da minha história por perguntas que nunca fiz a minha avó e não tenho intimidade com minhas tias, os elos femininos na minha família são fragmentados e frágeis, longe de acordos. Fomos ensinadas a desconfiar uma das outras e manter o sorriso intacto, sinal de que a inveja não nos atinge.

E as grandes amizades do meu passado também são delicadas, depois de tantas ressalvas.

Mas depois comecei a ver que existia outro mundo, cheio de mulheres ansiosas para quebrar esse paradigma, percebi que poucas coisas são mais convenientes ao patriarcado do que mulheres se odiando. No sistema nada é mais conveniente do que manter as mulheres desunidas, convencidas que a inimiga está ao lado, assim perdemos nosso tempo e energia preocupadas com outras mulheres, enquanto ignoramos os abusos que os homens cometem contra nós. 

A parte mais importante de manter as mulheres se odiando é que assim elas não se apoiam, não pedem ajuda e o mais importante- não abrem a boca sobre os abusos, acreditam que são as únicas a passar por isso.
Uma mulher se sentindo sozinha tem menos força que uma formiga e acreditando ser a única no planeta que foi violentada, agredida, estuprada, torturada, massacrada, ela ficará quieta e não tem nada que gere mais abusos do que o silêncio. Para os machistas é a glória a mulher que se sente sozinha, assim jamais vai denunciar nada.

E se o silêncio é a certeza para o patriarcado de que as mulheres estão no seu ''devido lugar'', o barulho é a ameaça, o aviso de que devem calar a mulher.

E esta semana os machistas de plantão miraram na Lola, a mais famosa blogueira feminista do país, do blog Escreva, Lola, escreva. 

Onde um mulher pode ler a palavra ''escreva'' e entender seu significado, os machistas devem ler de outro jeito e entendem que ela significa ''guerra''.

Nada perturba mais do que uma mulher escrevendo, na cabeça dos machistas é um crime imperdoável, digno de explodir guerras e perseguir a mulher.

E então Lola, blogueira de um dos blogs feministas mais importantes (ao meu ver, é o mais importante), começou a ser atacada virtualmente, mas é um tragédia que dura já alguns anos, não é de hoje que Lola vem dizendo o que está acontecendo. Meu blog não tem o alcance do dela e eu me vi obrigada a sumir por uns meses, devido as ameaças que vinha recebendo.

Lola está exausta, como muitas de nós, como todas nós. Não existe nenhuma blogueira feminista no mundo que lute para que as nuvens sejam pintadas de rosa, ninguém briga por maluquices, brigamos por direitos que já deveriam ser uma realidade. Ao atacar Lola estão atacando a todas nós, a liberdade de cada uma, digo o que já disse antes, então nem escrever podemos? 

O ataque a Lola mostra uma realidade pior do que imaginamos, a água vem subindo na nossa direção, não temos apenas os machistas lunáticos pela frente, temos também o exército de Deus (não sei que Deus é esse) que vem apertando as cordas, infiltrados no Congresso começam a votar contra todas as leis ligadas as mulheres. De vez em quando olho o calendário e me pergunto até quando serei livre de usar minha calça jeans, porque parece que é questão de meses que todas sejamos obrigadas a sair às ruas de burca.

Duas realidades me assustam, a primeira é o crescimento do fanatismo religioso e a maneira como alimentam a violência contra as mulheres e a outra é perceber como nós, mulheres, estamos divididas em pequenos grupos e distantes umas das outras. Não existe uma unidade de defesa, assim como existe uma unidade de ataque dos machistas. Nós não nos preocupamos em unir forças e as consequências começam a aparecer. Não adianta virtualmente ter centenas de grupos feministas se eles não estão ligados, milhões de pedaços espalhados não formam uma unidade.

É recente a consciência dos nossos direitos e o poder do mundo virtual, tudo é muito novo, a maioria cresceu como eu cresci, em uma família machista, em um mundo misógino, cercada de mensagens de ódio. 

Há pouco tempo percebemos a diferença que podemos fazer com o ativismo virtual, é mais poderoso do que muitas de nós pensávamos.

Me parece que o ataque a Lola deveria servir para que todas as mulheres reavaliem o que significa feminismo para elas e o que podem fazer a respeito. Todas temos o mesmo inimigo, o machismo e não há motivos para nos separar por grupos, cores, etnias, religiões, nem crenças, não temos mais tempo nem espaço para nos perder umas das outras.

Lola está cansada e pensa em parar o blog (link), um trabalho de oito anos e um dos maiores serviços prestados a causa, poucas feministas conseguiram espalhar de maneira tão clara e exata o feminismo, mas vamos ser realistas, se ela parar o blog, vão parar as agressões a todas nós? Se ela fecha o blog, vão acabar os 500 mil estupros por ano no Brasil? Não! Ou seja, nós precisamos da Lola, não podemos nos dar o luxo de perder uma voz tão forte. Se já estamos na berlinda apesar do trabalho árduo dela, imagine sem! Mas é justo pedir a ela que se sacrifique por todas? Não. Caramba! Quantas mulheres já morreram pela causa, quantas mulheres já morreram nas mãos dos maridos? Chega! Chega de tantas mulheres sempre no precipício!

Minha sugestão a tudo que está acontecendo com a Lola é que todas as mulheres compartilhem o post dela, entrem no Face para dar apoio, se manifestem, não podemos ficar quietas sendo outra de nós silenciada. As que tem medo posso dizer,ora, nós lidamos com o medo desde que nascemos, não vai ser agora que vamos congelar, dá para fazer ativismo virtual espalhando os posts e divulgando a causa, para que mais mulheres saibam o que está acontecendo.

Já estamos todas na beira da fogueira em um país que cada vez mais regride e nega nossos direitos, não podemos ficar quietas diante do que está acontecendo com a Lola.

E Lola não é apenas Lola, ela é todas. A violência que Lola sofreu e sofre é a mesma que todas nós temos que lidar, quem não tem medo?

Os machistas acham que tem poder virtual, que podem ''barbarizar'' na internet, ora, e nós não? Por acaso estamos com as mãos atadas? Não nesse caso, nossa defesa é viralizar a situação, como diz a outra blogueira ''vamos fazer um escandâlo''.

E é importante saber, ontem fui eu, hoje é a Lola e amanhã pode ser outra mulher.

Aos grupos feministas eu peço que se unam, que conversem entre si, a causa é a mesma, o inimigo é o mesmo, mas estamos perdendo a guerra por um erro de estratégia, enquanto eles vem em blocos e unidos, nós estamos dispersas e separadas. A nossa união é uma questão de lógica, não vamos avançar nada enquanto cada uma estiver em um canto. E nós não nos odiamos, quem nos odeiam são eles.

Uma mulher sozinha (meu tio dizia isso) é como um peixinho no mar, qualquer um pega. Hoje eu digo ao meu tio que não somos mais peixinhos, nem estamos sozinhas. Nós somos o mar e toda sua imensidão, juntas podemos agitar as ondas e passar um tsunami nesse machismo covarde.



Iara De Dupont

2 comentários:

C.Belo disse...

Eu vou ser sincera com VC, à periciclo princípio não me intimido com ameaças puras e simples, mas confesso q congelaria de medo, sim, se eu estivesse nessa situação da Lola, mas acho q nossa indignação deve ser maior que nosso medo, do contrário jamais sairemos dessa lama do patriarcado.

C.Belo disse...

Não é fácil mesmo, eu falo por um mim, já perdi amizades até mesmo de familiares por causa do meu ativismo virtual.

Eu à princípio não me intimido com ameças puras e simples, mas congelaria se estivesse nessa situação da Lola, sim, mas nossa indignação tem de ser maior que nosso medo, do contrário jamais sairemos dessa lama do patriarcado.

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...