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17 março 2015

Ser feminista? Não, obrigado, não quero ficar chata...



E Romeu disse:

-Você é feminista, não tem medo de ficar chata?

Não, mas já tive e muito, principalmente no começo. Eu era fofa e fui educada para continuar sendo, não gosto de confrontos nem discussões, mas comecei a perceber que o mundo não se importava em ser ''chato'' comigo, então por que eu deveria medir minha chatice?

Namorei um Romeu que se eu o contrariava, logo respondia:

-Xi, lá vai começar o discurso da oprimida. Tudo culpa dos homens né?

Ele fazia isso para me calar, submeter e humilhar. Mas eu me sentia mal, achava que era uma chata.

Na faculdade se eu levantava a mão podia escutar vozes atrás dizendo:

-Lá vem ela!

-Vai gordinha revoltada!

E cheguei a escutar de uma colega:

-Cara, essa mina é muito chata.

E não importava minha dúvida, eu podia levantar o braço para perguntar as horas, não fazia diferença, já me conheciam ali porque eu protestava contra o machismo e a misoginia dos professores.

Na família também aconteceram coisas e eu ficava magoada. Em um dos últimos eventos, minhas tias reuniram as sobrinhas para distribuir tarefas para o jantar de Natal. Na hora cantei a bola de que os sobrinhos não estavam ali e me disseram que eles tinham ''compromissos''. Ah, tá, são homens, eles não podem escrever um menu, separar as compras, pagar, cozinhar, servir e limpar. Uma prima quis amenizar e me avisou que estava presente a esposa do meu primo, ela representava o casal, mesmo assim não me conformei, quis saber se pelo menos eles iam pagar o jantar e minha tia respondeu:

- E homem lá liga para jantar de Natal?

Então por que merda estamos fazendo isso?

E de repente veio aquela onda que tanto conheço ''é tudo culpa da Iara'', '' ela faz questão de estragar tudo'', ''quem mandou chamar ela'', ''ela sempre apronta'', ''está inventando para não cozinhar'', ''adora criar conflito'', ''não te disse que ela ia inventar alguma merda?''. Foram tantas coisas ditas essa noite que cheguei a uma conclusão, eu não tinha mais saúde física nem mental para isso, se a minha presença na família causava tanto desgosto, então eu me afastaria. E foi assim, sem arrependimentos, pelo contrário, só senti alívio.

No teatro também não escapei. Vi uma atriz se trocando e percebi que um ator estava escondido olhando, fui lá e falei um monte. O diretor quis saber o que tinha acontecido e o ator começou ''a Iara só cria polêmica, antes dela entrar no grupo todo mundo se dava bem''.

Em todos os momentos que criei conflito, problemas, polêmicas e dores de cabeça, estava apenas questionando algumas coisas e me posicionando a favor de outras.

Percebi que faziam essa leitura de mim, que eu era chata. Mas depois de estudar o feminismo me dei conta que ''chato'' era não poder se expressar sem ser julgada, rotulada e condenada. Nunca me levantei para ofender ninguém de graça, quando falei alguma coisa é porque acreditava nela.

No dia da reunião na casa da minha tia eu estava cansada, exausta e queriam que me comprometesse a cozinhar para quinze homens que não levantam um copo? Chega!
Minha mãe foi torturada por isso, disseram que eu gostava de botar lenha na fogueira e fazia guerras para estragar o Natal de todos, apenas porque quis saber como os homens iriam colaborar na data.

A grande confusão que existe é que algumas pessoas acreditam que feministas saem todos os dias as ruas carregando cartazes e protestando contra tudo. Temos em cima o patriarcado dizendo que quando uma mulher abre a boca é porque vai falar merda. Mas feministas são pessoas que acreditam na igualdade e vão se manifestar se vêem alguma coisa errada, não saem pelas ruas dando sermão, nem querendo catequizar ninguém.

Se uma amiga quer me apresentar um Romeu, logo diz:

-Mas disfarça, não diz que é feminista!

Sou eu que tenho que disfarçar? Sou eu que estou errada?

Ah, tá.

E escuto centenas de vezes isso de mulheres:

-Gosto da causa feminista, mas tenho medo de ficar chata!

Pois é, moça, chato é o mundo que persegue as mulheres, não o feminismo. Chato é não poder viver em um planeta e se expressar sem ser ridicularizada por isso.

Chato é chorar por qualquer motivo e dizerem que você está de tmp ( tensão-pré-menstrual). Chato é você se arrebentar no teu trabalho de conclusão na faculdade e escutar do professor que teu trabalho é tão bom que parece feito por um ''homem''.
Chato é o mundo que aperta, empurra, massacra as mulheres.

E um Romeu me disse uma vez:

-Olha, quando a gente conhecer meus amigos, por favor, não fala que é feminista, porque eles vão me zoar, dizer que não te controlo e sou teu empregado castrado.

É? É. Fica chato.

Um dia conversando com uns amigos sobre feminismo, um deles disse:

-Iara, você é tão apaixonada por esse assunto que cheguei a uma conclusão: você precisa de sexo.

Depois de tantos tapas perdi o medo de ser chata, o mundo não tem receio de ser chato comigo, então estamos quites. Se sou ou não chata, não me importa mais e não penso nisso.

Algumas pessoas pensam que estar afastada da minha família ou ter algumas rusgas no trabalho, mostra que ser feminista não é uma boa escolha. Mas toda a liberdade que experimento compensa o caminho que faço. Não quero estar cozinhando para homens, presa a uma ideia de noite de Natal, enquanto eles cagam na minha cabeça. Não quero Romeus que pensem que ser feminista é castrar homens, nem amigos ou colegas que pensem que sou uma revoltada à toa.

Não fiquei anti-social, nem perco meu tempo discutindo, mas encontrei outra maneira de viver e percebi que não importa meu discurso, ele sempre vai ser fuzilado porque eu sou uma mulher. Essa foi a parte chata, quando descobri que o ponto não era pessoal, mas generalizado. É só abrir a boca que a mulher é criticada, não faz diferença o discurso.

O mundo não pede desculpas nem tem vergonha de tudo o que tem feito com as mulheres e eu vou ficar preocupada em não ser ''chata''? Quero mais é que se foda.

Já me perguntaram se perdi muitas coisas ao me tornar feminista, mas eu sempre respondo que só ganhei. O mundo que me apresentaram era pequeno, sufocante e ofensivo, não sinto falta de nada dali. Não queria e nunca quis, ser como as mulheres de minha família, me ver em véspera de Natal cortando e cozinhando, enquanto os homens assistem jogos. Isso não é para mim, nunca foi, por isso os choques foram inevitáveis.

E detrás da frase  ''não quero ficar chata'' sei que se esconde ''por favor, me amem, eu sou uma boa garota''. Por isso também fiz questão de ficar chata, porque sei que todas somos criadas para servir o mundo, ninguém quer contrariar o patriarcado, todas conhecem suas consequências.

E não julgo quem tem medo de ficar chata. Isso é um problema da pessoa, eu perdi o medo e aprendi a conviver de outra maneira com os homens que me rodeiam, antes era mais complicado, me sentia agredida com piadas de cunho sexual e não sabia como reagir, hoje sei e na hora que começa eu já vou parando. Também me enrolava com os Romeus, não queria ser desagradável, mas percebi que eles eram desagradáveis comigo e não tinham o menor pudor.

Escuto que feminismo é ''coisa de mulher chata''. E para mim machismo é coisa de mundo chato.

Percebo cada dia a importância de tirar a palavra ''medo'' de meu dicionário. Fui criada como todas as mulheres, para ter medo de sair à noite, medo de caminhar sozinha nas ruas, medo disso, medo daquilo. E tudo é criado pelo machismo, para controlar as mulheres, nos educam para que a gente se paralise diante do medo. E não sou religiosa, mas uma vez li que Jesus disse que não se pode ter medo. 

Quando fiquei chata, segundo os machistas, deixei de ter medo, deixei de ser quem não sou. Eu nunca fui a sobrinha, nem a filha, que gosta de cortar cebolas e servir homens, sempre quis alguma coisa na vida, além disso. Ficar chata me permitiu perceber minha inteligência e o que queria na vida, apagar da minha pele essa frase ''por favor me ame, sou uma boa garota'' me libertou de centenas de demônios. Não quero ser amada pelo o que não sou, e não sou essa garota boa que o patriarcado adora.

O feminismo mostra o caminho, a nossa chatice em relação aos nossos direitos nos ensina que somos maiores do que pensamos e mais fortes do que sentimos e não estamos aqui para servir ninguém nem para agradar os homens, cada mulher é um ser de luz, uma criação divina. O machismo nos faz pequenas, miseráveis e infelizes. O feminismo liberta, nos abre o mundo e nos coloca frente ao espelho, aquele que mostra toda nossa grandeza, como mulheres, como espíritos, como seres iluminados. E livres para fazer suas escolhas.

Iara De Dupont

7 comentários:

Fátima disse...

Li esse artigo , no jornal O TEMPO de Minas Gerais, reproduzo na integra, para sua análise:

Silvana Mascagna

“Vaca”, “piranha”, “vadia”...





PUBLICADO EM 11/03/15 - 03h00


É legítima qualquer manifestação. Seja ela de onde vier. É disso que se trata a democracia.

Está insatisfeito, proteste! Mas, por favor, deixe claras as razões do seu protesto. Me faça entender, bem rapidamente, com palavras de ordem, frases curtas e musiquinhas simples, suas reivindicações. Para que eu, que não estou me manifestando, possa entender. E que, se eu concordar com seus apelos, possa me identificar e me aliar. Ou, se eu for contra, possa criar minhas próprias palavras de ordem, frases curtas e musiquinhas para combater as suas.

Mas, por favor, não bata panelas de dentro de suas casas e nem grite “vaca”, “piranha”, “puta”, “vagabunda” e “vadia”. Essas palavras não significam nada pra mim quando penso que você está promovendo um panelaço porque é contra o governo. Com gritos de “vaca”, “piranha”, “puta”, “vagabunda” e “vadia”, a única coisa que identifico é seu discurso de ódio, sexista, machista, misógino. E, então, a coisa muda de figura. Meu cérebro percebe imediatamente que não é possível se identificar com esse discurso, mas tampouco é capaz de transformar meus argumentos em palavras de ordem, frases curtas e musiquinhas em resposta a quem, acima de tudo, quer atingir a MULHER que nos governa e não o seu governo.

Isso porque, se tudo o que você tem a dizer contra a presidenta é tachá-la de “vaca”, “piranha”, “puta”, “vagabunda” e “vadia”, você não está fazendo nada além do que qualquer um faz quando quer depreciar uma mulher poderosa. Seja ela governante de um país, presidente de uma empresa, editora de um jornal, dona de um boteco, líder de uma sala de aula. Faz parte do nosso cotidiano. Nos ofende, nos revolta, muito, mas não nos paralisa.

E, se o 8 de Março existe, não é para sermos parabenizadas, ganharmos flores e bombons, mas para lembrarmos que nessa data mulheres foram queimadas vivas por exigirem igualdade de condições de trabalho com relação aos homens e que hoje, 158 anos depois, ainda a luta é diária. Contra o assédio, o estupro, o feminicídio, a misoginia, o machismo, o sexismo. A ideia, como disse lindamente Aline Valek num texto na “Carta Capital”, “é nos esmagar, nos diminuir, nos calar, tirar nossos espaços e nos fazer pequenas até sumir”.

Por isso, quando você bate panela e grita “vaca”, “piranha”, “puta”, “vagabunda” e “vadia”, eu imediatamente me identifico com a ofendida. Questão de afinidade.

Alessandra T. disse...

Você sabe que me tornei "chata" através dos seus textos, essa "chatice" tem me libertado cada vez mais de tanta coisa que carregava e que sempre foram tão pesadas e me oprimiam. Essa "chatice" me fez entender muitas coisas e estar preparada para nunca mais aceitar coisas que antes eram normais.
Sou grata por ser "chata" e quero ser cada vez mais.

clarissa disse...

Poxa vida, Iara, eu sou chatérrima! Trabalho loucamente, ganho tanto quanto o meu marido, dividimos tarefas, mas, sempre, sempre tem um boi-corneta para dizer "pobrezinho do manoel, tão mal-cuidado! a mulher
dele vive na rua, se arrumar outra, não será surpresa!" mas, não é? eu vivo na rua- plantão, 270h/mês; diga-se - e o pobrezinho tá mal-cuidado! Com 43 anos!! ele tentou entrar nessa argumentação uns 10 anos atrás, eu disse que se ele me pagasse o que ganho, eu ficava em casa cuidando dele- game over! Nunca mais me encheu! mas as cobranças existem e, vou te dizer, minha amiga, se ele me pagasse pra ficar em casa cuidando dele, eu acho que ia pedir demissão e voltar pro hospital! kkk bjoo

Anônimo disse...

Cada Romeu de merda Iara, quem precisa de inimigos com esses caras???

E seeeempre estamos precisando de sexo, pq pra babacas infantis o mundo de resume a pênis, tipo menininhos de cinco anos. Meu pau é maior do que o seu, pega no meu pau, vou mostrar ele pra fulana! Não crescem!!!

Suzana Neves disse...

Eu fiquei chata faz uns anos já.....

Ana T disse...

Só pra dizer que aplaudi de pé (literalmente) essa postagem. Que o mundo se encha cada vez de mais "chatas".

Anônimo disse...

Pois é, sou uma 'chata' também, mas ultimamente tenho ficado mais quietinha, pra não assustar as pessoas, afastá-las...
Um exemplo, que me fez lembrar do seu jantar de Natal:sempre tinha reuniões com a família do meu ex, que é grande, e as mulheres ficavam dentro de casa, fazendo tudo, o que ia desde a hora da compra dos alimentos bem cedo, até quando o último talher era seco e guardado lá pelo meio da tarde, enquanto os homens, ficavam sentadinhos na rua bebendo, conversando e rindo.
Chegou um ponto que eu optei por não mais ir, ficava curtindo meus fins de semana bem de boa em casa, na internet, ou jogando, ou indo a casa de amigos, e deixava ele lá, que se dane, se eu reclamasse nada mudaria mesmo.
Nem preciso dizer que fui taxada de 'bicho do mato', estranha, anti social, por fim acostumaram e não diziam mais nada, não que me importasse com suas opiniõezinhas, ahaha, se isso é ser chata, sou e das grandes.

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