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28 setembro 2017

Se caiu de cabeça quente, se levante de cabeça fria




Uma das piores coisas que aprendemos na vida é a parar no meio do caminho para ficarmos lamentando o erro cometido, a estrada equivccada, o atalho que nos levou a perder tudo. Ficamos ali congelados, sem saber o que fazer, vendo o tempo passar enquanto tentamos entender na nossa mente o que nos levou até ali.

Levei anos para aprender a perceber a importância de me mexer logo, de não perder tempo tentando decifrar o que não iria mudar minha história, mas ainda me cuido, porque sei que posso cair a qualquer momento e passar largas décadas lamentando a queda, parada no mesmo lugar.

O problema não é cair, isso é um fato que vai acontecer com todos, mas ter a cabeça fria de ver como vai se levantar.

Sempre penso na história de uma amiga de minha mãe. Ela perdeu os pais muito nova, ficou morando com uma tia, se apaixonou loucamente aos dezoito anos e se casou, tudo feito na emergência de sair da casa da tia, de ter vida própria, de começar outra existência mais feliz. Se enroscou na decisão, engravidou logo e quando acordou tinha cinco filhos.

Trabalhava antes na loja de uma amiga, mas com tantos filhos foi obrigada a ficar em casa, para cuidar a todos.

Os anos passaram, talvez dez anos, doze anos, não sei, mas ela se viu presa no erro, cheia de filhos, sem estudos e com um marido que se revelou um pesadelo. O rapaz era trabalhador, mas bebia, jogava e gostava de mulheres, pagava as contas da casa, mas continuava se comportando como se fosse solteiro, pior, adolescente.

Então ela resolveu sair do casamento. Mas teve uma ideia brilhante, uma luz que deve ter aparecido depois de tanta dor. Se tinha entrado no casamento tão apaixonada, tão cabeça quente, tão impulsiva, agora seria outra para sair, faria tudo tranquilamente, de cabeça fria e sem colocar sentimentos na mesa.

Comentou a algumas amigas a ideia que teve, de sair devagar do casamento, todas fizeram questão de dizer que era um absurdo, que elas poderiam ajudar, mas essa ideia não era boa. Pra quê fazer isso, planejar sair de um casamento como se fosse uma questão secreta de algum governo? Pede o divórcio e pronto.

Mas ela entendeu sua situação, não tinha pais para ajudar, tinha cinco filhos, nenhuma formação e que tanto as amigas poderiam fazer por ela? Finalmente cada uma tem sua vida.

Ela pensou no divórcio e analisou a situação. Resolveu que precisaria primeiro de um emprego e começou a procurar um. Como não tinha formação, encontrou espaço na área de vendas, começou a vender seguros. O marido não dizia nada, a essa altura já chegava sempre bêbado em casa e não sabia nem o que tinha acontecido durante o dia.

Conversou com o marido sobre a importância de deixar a casa que ele ainda estava pagando no nome dos filhos, era mais seguro assim e o marido aceitou.

Já vendendo seguros, trabalhando nas ruas, começou a escutar outras pessoas, ter ideias novas e percebeu que precisaria pagar um plano de aposentadoria.

Foi fazendo isso, aumentando sua autoestima, tinha que se arrumar para sair de casa, deixava a filha mais velha cuidando dos menores e começou a planejar sua saída do casamento. Procurou um advogado e entrou com o processo de divórcio, o marido quando foi avisado deu um escândalo, berrou dizendo que não pagaria um centavo de pensão e ela poderia ficar com a casa, porque de qualquer jeito iria morrer de fome com as cinco crianças.

O marido não sabia do caixa 2 que a mulher tinha feito vendendo seguros, não sabia que ela já tinha calculado sua renda sem o dinheiro dele, nem que estava bem estabelecida vendendo seguros.

O marido foi embora, levou anos para conseguir tirar dele uma pensão, mas ele enrolou tanto e conseguiu escorregar da justiça centenas de vezes, que quando foi determinado o valor, os filhos já eram maiores de idade, então ele se livrou da pensão, mas concordou em pagar a faculdade deles.

O impressionante desta história não foi o marido que sumiu por anos e a deixou sem pensão, mas que entre o plano de se divorciar e o fato acontecer, se passaram quatro longos anos.

É isso que faz a história tão extraordinária, uma mulher que percebe como errou ao entrar em uma situação de cabeça quente e decide que vai sair dela, mas de cabeça fria.

Ela planejou tudo com calma, sem erro, mas não deve ter sido fácil, isso a obrigou a conviver com um marido que não amava mais e lidar com situações penosas, mas teve a tranquilidade de perceber que um movimento errado seria pior, ter a cabeça quente e sair correndo do casamento a levaria a passar fome com cinco crianças, mas pensando de um jeito frio, ela conseguiu se segurar quatro anos. E todas as amigas dizendo que aquilo era um erro, que era melhor pedir o divórcio e esquecer o assunto, mas ela resistiu até o fim.

O fim da história foi justo, os filhos cresceram respeitando a mãe, entendendo o tamanho do seu sacrifício e visão, ela se aposentou bem, não precisou mendigar dinheiro de marido, conseguiu dentro de sua área fazer uma carreira que nunca permitiu grandes luxos nem viagens, mas pagou as contas e colocou o pão dentro de casa.

Ela errou uma vez, jovem, sem família, mas não se permitiu errar novamente, e muitas pessoas dizem que a história deu certo para ela porque não amava mais o marido, mas isso é uma suposição, quantas mulheres não amam mais o marido e mesmo assim saem dos casamentos de cabeça quente? A grande maioria faz isso.

Outras pessoas dizem que ela aguentou o casamento porque ele não era violento, mas isso depende da perspectiva, eu acho violento um homem que chega caindo pelas tabelas todos os dias, está sempre bêbado e ofendendo a mulher.

O que ela fez foi por instinto, não tinha ninguém para ajudar, nem dizer como fazer. Nem acredito que ela tenha tido na época a clara noção do que tinha decidido fazer, sair de cabeça fria de uma situação que entrou de cabeça quente.

Mas o que muitas vezes nos mantém presos a uma situação é que entramos nela de cabeça quente, caímos de cabeça quente e queremos nos levantar de cabeça quente, como se isso fosse possível.

Quando eu era pequena caí durante uma patinação no gelo, e comecei a chorar, um professor se aproximou e disse ''respira fundo e tenta se controlar, assim é mais fácil se levantar''.

Não foi porque tive uma fratura exposta, mas hoje entendo o que ele quis dizer, na queda choramos, nos desesperamos e não pensamos em nos levantar respirando fundo, de cabeça fria, e perdemos um tempo sagrado ali, no meio do ataque de histeria.

A isso somamos o tempo biblíco, aquele espaço que damos para nos julgar, mutilar e começamos a autopunição, como se isso fosse adiantar alguma coisa. Diante do erro perdemos tempo nos lembrando que poderíamos ter evitado essa queda, prendemos nossa mente ao momento e esquecemos de tudo, a queda vira um tombo gigante e parecemos incapazes de reagir.

Algumas pessoas disseram ''mas ela levou quatro anos para sair do casamento? É muito tempo''.

Sim, é bastante tempo para tolerar alguém que não amamos mais, mas quanto tempo ela teria levado, caso não estivesse preparada? O marido sumiu com o pedido de divórcio, ela teria ficado sozinha com os filhos e sem renda, quanto tempo teria levado para se organizar novamente? 

Quatro anos parecem muito tempo, mas com certeza se ela tivesse pulado fora de cabeça quente o tempo consumido teria sido maior.

Pode acontecer em muitas situações, levamos um minuto para entrar e anos para sair, mas é melhor levar esses anos tentando sair de maneira fria, do que ficar presa mais algumas décadas, estrebuchando de cabeça quente.

Caiu? Respira fundo e pensa em sair de cabeça fria. Se caiu de cabeça quente, espera esfriar. Cair de cabeça quente é uma coisa que acontece, mas todos podemos esfriar a cabeça para sair da situação.

E talvez venha disso o aprendizado, quando dizem que não saímos das situações da mesma maneira que entramos, que tudo nos transforma. Talvez a transformação venha da temperatura das nossas cabeças, quente para entrar, frio para sair.

O ideal é nunca ter cabeça quente, até na hora de entrar em situações ruins, é sempre bom pensar com calma, mas o ser humano não é assim, a cabeça esquenta, a pressa de mudar a vida aparece, o momento aperta e nos jogamos sem esfriar as ideias. Acontece. Mas a regra é, se caiu de cabeça quente, se levante de cabeça fria.

Iara De Dupont

04 setembro 2017

Uma vida no forno à lenha



Durante uma viagem me ofereceram um pão feio em um forno à lenha. Nunca tinha comido nada como aquilo, fiquei fascinada, o sabor era intenso, diferente, o melhor pão que já comi.

Fui procurar a pessoa que o fez, eu queria a receita, e ela me perguntou ''você tem forno à lenha na sua casa?''.

Não, eu não moro em casa, moro em apartamento e tenho um fogão.

E ela respondeu:

-Então não adianta te dar a receita, os tempos são outros.

É, os tempos são outros, mas ainda insistimos em viver em tempos passados, querendo cronometrar tudo como era antigamente.

Uma amiga se divorciou recentemente, foi uma decisão- segundo ela- consciente e discutida, os dois acharam melhor terminar em paz do que seguir em uma guerra.

Ela parece tranquila, mas de vez em quando se joga na cama e chora, lamenta a sorte, fica horas dizendo a mesma coisa:

-Poxa, meus pais ainda estão casados, todos os casais enfrentam problemas e superam, por quê eu fracassei nisso? E minhas tias? Continuam casadas! Eu gostava do meu marido, acho que poderíamos ter trabalhado mais duro nessa questão, não paramos para pensar em tantos casais que já passaram por situações ruins e conseguiram superar.

É fato, casais passam por momentos tensos e tem que decidir se continuam juntos ou cada um segue seu caminho.

Mas qual o nosso parâmetro? O das mulheres da família? Casamento dos pais ou dos tios? Ou talvez dos avós?

Essa é a nossa perspectiva de vida conjugal, baseada no que vimos em família.

O casamento da mãe da minha amiga me parece uma merda, um marido histérico, nervoso, e ela sempre tentando colocar panos quentes. Que vida é essa?

Em um ato suicida de romantismo esquecemos o contexto que estamos e o contexto no qual estavam nossas tias e avós.

Não construímos mais nossos relacionamentos da maneira que elas construíram, tudo mudou, é como a história do forno.

Talvez seja a primeira vez na história da humanidade que começamos a ver o tempo como realmente é, talvez relacionamentos são feitos para durar no máximo dez anos, depois disso não funcionam mais, não sei, pode ser.

Pensamos que algumas mulheres da nossa família, casadas há décadas estão ali porque são felizes e tiveram sorte, mas talvez só estão ali porque resistiram a coisas que nós não temos que aguentar.

Não temos mais uma sociedade nos julgando por sermos ''divorciadas'', nem somos proibidas de entrar nas igrejas. O divórcio é um processo simples e não precisa mais do consentimento do homem, pode correr à revelia.

Durante muitos anos me perguntei se seria capaz de aguentar tantos anos de casamento, como as mulheres da minha família, mas quando comecei a olhar de perto percebi como eram escravas, infelizes e como tinham tolerado coisas que eu não aguentaria.

Tenho uma tia que se casou há cinquenta anos e sempre faz uma festa para comemorar. Eu achava lindo, o marido dela parecia apaixonado e paciente, tudo brilhava.

Mas ao me aproximar fiquei sabendo que minha tia amava outro homem, mas ele se casou com outra mulher e ela em um momento de ódio, de raiva, aceitou o pedido do meu tio, que era aquele eterno amigo apaixonado. Minha tia se casou sem amá-lo, nunca se envolveu ali e acabaram se acostumando a viver assim, ela sem amar e ele mendigando esse amor.

Durante umas férias com eles percebi que nem se dirigiam a palavra, mal se falavam, evitam compromissos juntos e podiam passar horas sentados no sofá sem olharem um para a cara do outro. E vivem assim há cinquenta anos.

Outra tia é casada há quarenta anos, coisa que ostenta com orgulho, mas engoliu um marido que a traiu e gastou seu dinheiro com prostitutas. Minha tia aguentou quieta, foi sua decisão.

E minha avó? Para onde iria correr, caso quisesse se separar? Era semi analfabeta, com filho de colo, não tinha para onde ir, não tinha como se livrar do marido mulherengo e irresponsável. Mas seu casamento durou a vida inteira, quase setenta anos.

E fazemos as contas da nossa vida amorosa usando as mulheres de nossa família como parâmetro! Essas mulheres infelizes, que sofreram horrores nas mãos dos seus maridos, que não podiam ir embora porque dependiam do ingresso econômico dele, não tinham estudos, presas na ignorância religiosa, julgadas por uma sociedade machista e misógina.

Não podemos continuar pensando que se não aguentamos um casamento quarenta anos é porque fracassamos!

Fracassamos no quê? Em não querer viver anos infelizes nem aguentar tudo de um homem?

Fracasso é ficar, insistir, alegando que não quer ser a única da família com um divórcio nas costas.

Nossa vida amorosa não é mais um forno à lenha, lento, cozinhando nosso tempo a favor de um homem, as coisas mudaram, hoje nossa vida é um forno de um fogão moderno, que ligamos quando queremos e não é para favorecer nem ''queimar'' pecado de marido.

Salvo casos em países arcaicos, nenhuma mulher mais tem que ficar com um homem a vida inteira, talvez nem seja a natureza humana viver essa experiência, já que casamento não é uma situação biológica, mas uma imposição social.

O casamento durou um ano? Cinco anos? Dez anos?
Tá bom, o tempo que durar, tá valendo.

Não façam as contas intoxicadas pelas histórias mentirosas da família. Quem nunca escutou ''sabe aquela tia, a Mariquinha? Nossa, ela se casou e foi tão feliz durante os cinquenta anos que seu casamento durou''.

É? Você estava ali para ver o que a Mariquinha enfrentou cinquenta anos?

Ah,meu Deus, mas talvez deveríamos ser mais fortes e lutar pelos nossos casamentos, como elas fizeram.

Pelo amor de Jesus, o que elas aguentaram? Homens violentos, abusivos, bêbados, mulherengos, jogadores, cafajestes, que as ignoravam de dia e estupravam de noite. Algumas também aguentaram homens que nem colocavam dinheiro em casa.

Elas não tinham saída, nós temos. E vai muito além do feminismo, é sobre felicidade, é sobre dizer, isso aqui acabou para mim, fui feliz enquanto durou, mas agora quero outros caminhos.

E será que existe alguém que aguente um casamento por quarenta anos? Pode ser que sim, tem louco pra tudo nesse mundo.

Quer se jogar na cama e lamentar o fim do casamento? Faça isso, chore, se desespere, mas nunca use o tempo das mulheres da sua família, não bata a cabeça na parede pensando na sua mãe que tem sessenta anos de casada. O tempo dela era outro, o nosso é o de agora. Fim de relacionamento sempre causa um pouco de dor e pensar que fracassamos só piora.

Não tem fracasso em tempos que se encerram e tempos que começam. Precisamos estar livres para recomeçar e devemos agradecer essa oportunidade, essa que foi negada a todas as mulheres da nossa família. Podemos decidir ficar ou ir embora, um privilégio que tantas não tiveram, por isso é uma bênção. Sempre.


Iara De Dupont

31 agosto 2017

A ponte




Há uns anos uma amiga estava em uma encruzilhada, não sabia se usava o dinheiro que tinha economizado, para se casar ou fazer uma cirurgia de redução de estômago.

Embalada pela brisa tóxica que envolve todas as mulheres apaixonadas, resolveu gastar o dinheiro se casando, alegou que ainda não se sentia ''forte'' emocionalmente para enfrentar uma dieta e cirurgia.

Quatro anos depois resolveu que estava em um bom momento para fazer a cirurgia, o trabalho era bom e seguro, o casamento estável.

Começou todos os procedimentos e o marido parecia honrar o posto de homem decente, dava apoio, acompanhava as mil consultas e procedimentos médicos.

E ela fez a cirurgia, e lá se foram quase cinquenta quilos.

Passei um meses sem vê-la, e quando isso aconteceu, fiquei impressionada. Não foram os quilos perdidos que me chamaram à atenção, mas a postura dela.
E a vi em uma festa, dançando com o marido, e uma coisa me alertou o coração, tinha alguma coisa ali, entre eles, de repente ele parecia pequeno para um mulherão daqueles.

Algumas semanas depois veio o aviso aos amigos, eles estavam se divorciando, mas tudo estava bem.

Não foi um divórcio feito à gritos, nem percebido pelos amigos, não houve escândalos, nem avisos prévios, foi uma corda que se arrebentou durante longas noites. 

Ela sempre foi minha amiga, mas eu era mais próxima ao seu marido, colega de faculdade. Não perguntei a versão dela, crente de que essas coisas não se perguntam, apenas se escutam, caso a pessoa queira falar sobre o assunto. Ela definiu tudo em uma frase:

-Eu mudei e ele estava estacionado.

Da parte dele não houve essa compreensão, nem respeito, aos amigos ele fez questão de dizer que ela tinha mudado, e acelerado a vida, não era mais a doce mulher que conheceu. Em um momento de ódio, bêbado, berrou no meio da rua para a ex-mulher:

-Você mudou porque ficou magra, mas o médico disse que algumas pessoas voltam a engordar depois da cirurgia, tomara que você engorde novamente e venha de joelhos me pedir perdão.

Vi o olhar que ela lançou a ele, aquele olhar de pena, aquele olhar de velório quando lamentamos o azar do morto e em silêncio celebramos a nossa sorte, por estarmos vivos.

No dia seguinte ele me procurou, precisava de ajuda para pedir desculpas à mulher, tinha cruzado todos os limites e queria o perdão da moça.

Tive que me sentar na cadeira e explicar à ele que não existia mais a mulher ali, não era a moça com quem ele se casou, era outra, e por isso mesmo não haveria negociação, ele podia dar por perdido o casamento, a moça que ele pediu em casamento e aceitou, tinha sido abduzida, a que estava no seu lugar era uma versão melhorada da que ele conheceu.

Ele arregalou os olhos castanhos e me perguntou:

-Mas Iara, como uma perda de peso pode mudar tanto uma pessoa?

Pois é. Não é a perda de peso, mas assumir a nova identidade que faz tudo mudar.

Milhões de teorias sobre o emagrecimento e mudança de personalidade circulam no mundo, também tenho a minha e conheço a história da minha amiga, por ser tão parecida a minha.

Ela nasceu gordinha e durante a infância aprendeu se defender da perseguição das outras crianças, passou uma adolescência evitando praias e piscinas, sofreu com dietas, chorou sangue de ódio, de raiva, de dor. Na vida adulta entrou na faculdade e isso amenizou um pouco os sentimentos ruins, era boa aluna, compensava o resto estudando, porque era isso que a sociedade dizia a ela ''se não for bonita, compense estudando''. 

Sem autoestima sólida entrou em relacionamentos abusivos, foi humilhada, se sentiu no chão, ficou no chão.

Mas resolveu trabalhar sua autoestima, começou a aceitar seu peso, seu corpo gordo, suas curvas.

Conheceu o marido no trabalho, o rapaz comum, simpático, com aquele discurso de adorar ''gordinhas''. Talvez, talvez, se sentiu amada e resolveu se casar.

Ah, mas e aquela parte de ''fazer a cirurgia ou se casar?''.
Pois é, outra verdade escondida no meio de mil mentiras sobre algumas gordas.

Todos dizem que as gordas precisam se aceitar para parar de sofrer, mas esquecem de avisar que se aceitar, não quer dizer que o mundo te aceite. E não é tão simples assim, você pode parar na frente do espelho e dizer que se aceita, mas mesmo assim precisa sair com a espada na mão, porque o mundo lá fora vai vir com as pedras.

Se aceitar como gorda é viver em uma permanente guerra com o planeta, pessoas se aproximam para sugerir dietas, humilhações continuam acontecendo.

Ainda assim, se aceitar é a melhor saída, a mais curta para ter paz, se o mundo não aceita gordas, bom, deixa pra lá.

E a moça emagreceu e pisou em outro planeta, onde ela era aceita, não apenas tolerada.
Seu peso não era mencionado e as humilhações não aconteciam. E isso levou a um processo de fortalecimento, que acontece com qualquer ser humano que seja tratado com respeito e aceitação.

O rapaz casou com uma moça machucada pelo peso, que carregava feridas causadas por um mundo doente e arrastava correntes de rejeição. Por fora era a gorda que se aceitava, por dentro ainda sangrava, obrigada a viver em um mundo onde as roupas não cabem e as pessoas olham com desprezo.

E ela tentava aplicar todas as mentiras que deram à ela, quando diziam que ao se aceitar, o mundo te abre os braços e te beija com devoção. Ela se aceitava de manhã, mas à tarde escutava discursos de seu médico, dizendo que não poderia engravidar pelo peso, à noite a sogra lembrava que homens não gostam de mulheres ''tão gordas'', sempre é bom perder peso. E de repente, depois da cirurgia, o silêncio. Ninguém dizendo mais nada, talvez o médico murmurou um ''parabéns''.

Ela entrou para o mundo onde ninguém julgava sua aparência, nem olhava para seu prato. Agora era igual a milhões, podia parar na frente de uma vitrine, admirar suas roupas e entrar na loja, sem ser barrada por alguma vendedora avisando que eles não vendem roupas para gordas.

Mudou o guarda-roupa, trocou as ''roupas que cabem'', pelas que realmente queria vestir.
E o marido olhando, em silêncio. Já sabia que outros homens a olhavam nas ruas, ele não era mais o único a dizer algum elogio, nem a comentar sobre sua aparência. E assim ele ficou pequeno, sem entender quem era essa mulher na sua frente, se agarrou à ideia de que ela tinha mudado pelo seu peso, mas isso nunca aconteceu, ela mudou porque cruzou a ponte entre ser ''tolerada'' e ser ''aceita''.

Ela era esse ''mulherão'' desde o começo, mas anos de surras verbais por causa do seu peso, a esconderam debaixo de um falso manto de doçura. Uma vida inteira sendo julgada a fez duvidar sobre sua capacidade. Sua aparência sempre questionada pelos Romeus, a fez ter asco do própio corpo.

Se para o mundo, mulheres são apenas seus corpos, então ao ser gorda e rejeitada, ela recua. O mundo é intimidante ao julgar uma mulher, ao ter excesso de peso a tendência é dar dois passos atrás.

Ah, meu Deus, mas ninguém é um corpo! 
É fato, mas somos julgados por ele.

A moça me contou uma história, há um bom tempo, dizia que esse era o motivo pelo qual não gostava de crianças. Ela trabalhava com uma pessoa, e sabia que essa pessoa passava por dificuldades econômicas e tinha um filho. Pensando em amenizar um pouco a vida da amiga, mandava presentes ao seu filho, carrinhos e bolas. Um dia a amiga resolveu levar o filho ao trabalho, para que a moça conhecesse o garoto e ele pudesse agradecer pessoalmente os presentes. Ela me contou que o menino entrou na sala correndo, foram apresentados e ele disse:

-Mamãe, por que você não me disse que ela era gorda?

A sala se congelou naquele momento. A mãe tentou rir e disse:

-Você não sabia que ela era gorda?

E o menino respondeu:

-Não, nem imaginei que fosse tão gigante. 

Ficou nisso. Mas ela não esqueceu, e a cada lembrança, cortava sua alma.

Já magra foi à uma festa infantil e as crianças a ignoraram, passaram por ela como se não existisse. E se sentiu livre, porque minutos antes se lembrou de como as crianças podem ser cruéis.

Quase nenhuma gorda, enquanto está gorda, se aproxima de quem realmente é, porque o mundo não permite isso, empurra a gorda para a periferia da existência, a obriga a engolir sua personalidade, como se tivesse que pedir desculpas por ser gorda.

Existem umas gordas diferentes, cascudas, fortes e dispostas à brigar, mas ainda assim, apanham mais do que batem.

E vejo centenas de homens se casando com gordas, que depois emagrecem e eles reclamam de que não é a mesma mulher com a qual se casaram.
Não é. É outra mulher, uma versão que se permite dar os dois passos à frente e se impor, alguém que tem a segurança de não ser julgado pela sua aparência. E homens ficam minúsculos diante dessa nova mulher, é uma experiência assustadora para eles.

Não digo que o peso seja importante, mas ele é usado contra nós, empurrado na nossa direção. Nunca me chamaram de ''mau-caráter'', mas já colecionei todas as ofensas ligadas ao fato de ser gorda. É o mundo nojento no qual vivemos.

Não devemos aceitar a imposição de um padrão de beleza asqueroso e surrealista, mas qual é a outra saída? Todos os dias sair com a espada, pronta para cortar línguas que não param de provocar?

Não, a saída é se aceitar e encontrar a paz. Mas o mundo que as gordas vivem é diferente do mundo das magras. 

Magras não entendem e gordas julgam quem diz que se aceitar não é suficiente neste mundo.

Muitos pensam que gordas emagrecem porque querem usar roupas melhores, mas a verdade é que elas emagrecem para poderem viver em paz, sem o mundo inteiro buzinando nas suas orelhas.

E casamentos não resistem a dietas nem cirurgias. O homem se casa com uma mulher gorda, no fundo insegura, e ainda ferida de guerra, que desconhece seu propio poder, sempre no limite. E de repente ela vira esse mulherão, como se fosse um alienígena saindo da casca. Homens são fracos, sempre embriagados de suas ideias retrógradas, incapazes de apoiar a mudança de uma mulher. São inseguros, se assustam facilmente, suas pernas tremem quando estão diante de uma mulher consciente de si.

Eu adoraria dizer que o mundo é belo e se aceitar resolve todos os problemas, mas não é verdade. Também gostaria de dizer que nos apaixonamos pelo interior da pessoa e ninguém vai te largar se você emagrecer ou engordar, porque é mentira.

Se aceitar não reduz a estrada nem evita as pedras. Mesmo assim continua sendo a melhor coisa a se fazer, talvez a única para se fortalecer e enfrentar tudo o que tem que enfrentar.

E nem entro naquela parte dos relacionamentos héteros e como pode ser traumatizante para uma gorda alguns deles, apenas porque os homens se sentem no direito de julgar o corpo de suas namoradas.

Não importa a situação, a mulher gorda sabe que pode ter todo o amor do mundo em sua casa, mas na rua as coisas não vão ser assim e os homens sabem, têm a certeza de que podem amar sua mulher gorda, porque ela não vai encontrar esse amor lá fora com as outras pessoas.

Emagrecer não é a solução para tudo, nem perder peso significa encontrar a felicidade, mas ao cruzar essa ponte não se pode pedir que homens pequenos acompanhem a mudança. O mundo é diferente para as gordas, e quem é, sabe do que estou falando. 

Se aceitar e viver em paz consigo mesma não neutraliza as bombas jogadas na sala, nem alivia a dor. Tudo o que nos leve a mudar a aparência, muda nossa maneira de ver o mundo, de sentir o planeta.

Casamentos acabam com dietas, porque surge outra pessoa, os quilos vão, e algo novo chega.

E talvez seja apenas uma questão, gorda ou magra, não importa, homens não aguentam mulheres que conhecem seu tamanho e sabem quem são.

De qualquer maneira atravessar a ponte entre ser tolerada e ser aceita, muda qualquer pessoa.



Iara De Dupont


31 julho 2017

Diploma de ódio


Dentro de todas as mentiras que nos fizeram acreditar, uma se destaca: o ódio que uma mulher sente pela outra.
Poucas mentiras tiveram mais poder do que essa, foi escrita nas pedras, desenhada nas paredes e tatuada no chão.

É fato que o ódio existe e navega pelo coração humano, mas não está direcionado a todas as pessoas de um gênero ou outro que cruzem no seu caminho. Odiar uma mulher que um dia te prejudicou não significa ''odiar'' todas.

Mas ódio ensinado é pior do que arma carregada, sempre está ali em alerta, acorda ao menor sinal e não escuta argumentos nem explicações.

Escutei uma conversa entre duas jovens, sobre uma terceira que estava acabando um mestrado. As duas jovens fizeram uma lista de motivos pelos quais o mestrado da terceira não valeria nada, a lista incluía suposições de que ela teria recebido ''ajuda'' de um professor, que a faculdade era ruim, que nem era bom o mestrado, enfim, parecia que tudo levava a mesma conclusão: o importante era odiar a moça.

Depois de um tempo elas voltaram a conversa e começaram a se divertir com uma história, parece que a moça que fez o mestrado tinha ficado muito tempo longe dos estudos, ficou insegura e contratou uma professora particular para dar uma refrescada e assim tentar um vestibular. Ficou dois anos com aulas particulares, e não eram tanto para se fortalecer nas matérias, mas para vencer sua insegurança. Depois conseguiu entrar na faculdade e acabou fazendo um mestrado.

Não sei os motivos da insegurança da moça, mas posso adivinhar um por um, porque são iguais ao de todas. Crescemos escutando que é bom estudar e ser inteligente, mas não é por essas qualidades que o teu príncipe vai te achar e se apaixonar, ele procura beleza e você tem que ser linda para ser amada.

Sem beleza, não tem amor e quem quer viver assim? Cercada de diplomas e sem um Romeu?

E nas ruas o discurso continua, mulheres fortes que entraram na política ou subiram nas carreiras sempre são criticadas pela sua aparência, quantas vezes escutei e li pessoas dizerem sobre mulheres poderosas ''que bom que é alguém na vida, porque com aquela cara e corpo, não vai achar marido''.

Pois é, isso é dito a todas, a cada segundo, a cada minuto, a cada hora, sem beleza não há vida e diplomas são para as feias, as que não tem outro jeito de sobreviver no mundo, já que não vão conseguir um ''macho'' para sustentá-las.


Somos doutrinadas para sonhar em sermos divas e um dia de nossas vidas, nem que seja um dia, entrar em um lugar e ser vista por ''ele'', essa figura mítica masculina que rege nossas vidas.

E quem é incentivada a sonhar com um mestrado, um doutorado? Não dá tempo!

E colocar um negócio propio? Já viu mulher lidar com o mundo real? Não consegue!

Estudar para muitas é um grande sacrifício, não pelo tempo, mas pela crença de que não é boa o suficiente para aquilo, porque a mensagem é sempre a mesma, mulheres são emocionais e não enfrentam bem os desafios acadêmicos.

E o outro lado da moeda também se aplica, o truque é fazer a mulher se sentir mal, então alguém pergunta se ela estudou, responde que não e logo vem o julgamento ''nossa, mas podia ter pelo menos terminado o ensino médio''.

Ah, sim, mulheres que não estudam se sentem mal, mulheres que estudam se sentem mal. É o mesmo jogo. 

Muitas mulheres que não estudam não o fazem por diversos motivos, o excesso de trabalho, responsabilidades, um marido inútil, filhos pequenos, mas o principal motivo é que não se sentem inteligentes o suficiente, se veem pequenas diante de um tubarão que não existe. Essas mulheres levam orçamentos domésticos, mas não se acham capazes de passar em uma prova de matemática, lidam com centenas de problemas todos os dias, mas não acreditam poder cumprir prazos de trabalhos e provas.

E tudo isso é mentira armada, ódio plantado. O patriarcado nunca quis mulheres em bancos de escolas e faculdades, não é do interesse deles nossa entrada a nenhum mundo que os faça perder o controle que tem sobre nossas vidas.

Nossa suposta burrice é mentira inventada, e tem sido assim durante séculos, nos fizeram acreditar que o mundo acadêmico é demais para nossas pequenas mentes. Depois plantaram o ódio que dizemos ter umas pelas outras, e pronto, o dano estava feito. 

Estamos acostumadas a olhar outra mulher com o mesmo olhar que recebemos do patriarcado, de desprezo e ódio.

E era uma história sobre duas jovens que falavam de uma terceira, ironizavam o mestrado que a moça tinha concluído, era ódio líquido que escorria pela boca.

Se a mentira não tivesse atravessado nossa vida seria uma história sobre duas jovens que se inspiraram em uma terceira e resolveram fazer alguma coisa de suas vidas. Pararam de se sentir mal com o que viam os outros fazerem e resolveram se mexer. Podia ser uma história sobre duas jovens que ficaram comovidas com o esforço da terceira, que contratou um professor particular para entrar em uma faculdade. Podia ser uma história de inspiração, uma mensagem extraordinária a todas as mulheres, acreditem na sua capacidade, inteligência e conquistem o mundo.

O bom é que as mentiras são frágeis paredes que um bom martelo derruba e podemos derrubar essa. Não somos burras e podemos estudar, evoluir, ter um negócio, ou ser dona de casa, não importa o que queremos ser, importa não se sentir burra.

O outro problema que o ódio traz é a conta alta, sim, pagamos pelo ódio que sentimos, ele nos puxa para baixo. Cada vez que vemos o sucesso de alguém e pensamos que poderia ser o nosso, vamos para baixo. Ódio não inspira, pelo contrário, te faz sentir mal.

A moça ao lado estudou, mudou de emprego, viajou, começou do zero?
Especular sobre como conseguiu isso e querer diminuir, não ajuda ninguém. Bom mesmo é olhar para o lado e se inspirar, pensar que se ela conseguiu, bom, eu posso estar mais perto do que quero. Foi possível para ela? Pode ser para mim. Em vez de jogar ódio e ressentimento, é melhor se aproximar e puxar uma conversa, conhecer um pouco inspira mais.

Mulheres são inspiradoras pela alta resistência a tudo, pela profundidade do seu amor e intensidade, e porque seguem em pé, apesar de tudo.

Quem está perto e muda algo, te prova que isso é uma coisa possível, sim, podemos reconstruir nossa vida, apesar de toda a terra que é jogada no nosso rosto.

E tenha a certeza, nenhuma mulher teve nada fácil nesta vida, todos escutamos as mesmas bobagens, recebemos as mesmas cargas de ódio e somos convencidas desde pequenas do nosso fracasso.

Quando odiar uma mulher sem motivos se pergunte se é real ou uma reação ao ódio que foi ensinado, se não é apenas um resto do lixo que carregamos. 

E pense duas vezes, se inspire, é mais fácil enfrentar um dragão quando sabemos que alguém já fez isso, do que ficar paralisada sem acreditar que pode fazer isso.

Todas as mulheres tiveram e têm os mesmos desafios, se inspire nas diferentes maneiras de enfrentá-los, de vivê-los.

Era uma história que poderia ser sobre duas jovens falando de uma terceira e no fim dizendo ''poxa, escutei a história dela e me senti inspirada para mudar minha vida, porque ela é parecida a mim, talvez seja eu, talvez seja eu lá na frente, quando tudo já deu certo''.


Iara De Dupont










11 julho 2017

Sem explicações



Nasci nos anos setenta e cresci no auge de uma nova ''pedagogia'', que incentivava os pais a conversarem com os filhos e respeitarem suas decisões.

Meus pais acreditaram nisso, foram ingênuos ao pensar que crianças ''sabem'' o que querem e podem verbalizar isso com perfeição. Assim fui educada, como se fosse um adulto em miniatura ou uma anã. Tudo que eu dizia ''sim'' ou ''não'', meus pais me pediam longas explicações, como se eu pudesse no alto dos meus seis anos me expressar como Platão.

Mas me acostumei a isso e meu cérebro correu atrás da ideia, comecei a falar cedo e sempre mostrei um bom vocabulário.

Verbalizei a vida inteira, até que percebi o óbvio: não adianta me pedir explicações se nem eu sei o que está acontecendo.

Nunca me dei esse direito, de dizer ''não sei''. Tentei explicar a ex-namorados porque queria sair dos relacionamentos, a chefes porque largava o trabalho, a diretores porque estava indo embora, mas na realidade aquilo era uma cortina de fumaça, porque nem eu sabia sempre o que estava acontecendo.

Levei anos para entender que eu precisava respeitar duas coisas na minha vida, uma era o fato de não ter uma explicação e a outra era não ter que dar nenhuma explicação, não importa se sei ou não, eu não devo explicações. 

E então comecei a perceber como o mundo era maior do que isso, e não eram apenas os rastros de uma educação pedagogicamente falida, mas a questão espiritual, meu direito de não tentar ter uma explicação diante das coisas que me acontecem.

Parece instável, mas é só um ser humano sendo ser humano, o direito de se levantar e dizer ''vou embora''.

Mas precisa explicar! Será que precisa mesmo?

Quantas vezes chorei pela mesma situação, homens que sumiam da minha vida sem nenhuma explicação, mas alguns séculos depois percebi que não era preciso dar essa explicação, a situação em si se explicava.

Olhando para trás me pergunto, que vantagem teria sido escutar uma explicação mentirosa? Teria trazido alívio para a dor? E por que acreditar que as pessoas têm explicação para tudo, se eu não tenho? E por que perder o tempo com explicações, se no fundo sabemos mais do que pensamos e sentimos mais do que aceitamos?

É um direito espiritual que temos e não usamos, o de levantar da mesa e ir embora sem dizer nada.

Ah, mas quantas pessoas podemos magoar? Muitas.
Mas que explicação damos diante do inexplicável em nossas vidas? Será que sabemos e podemos explicar nossas ações?

Perdi tempo e energia inventando explicações que não existiam, verbalizando o invisível, desenhando sombras.

É terrível se levantar e ir embora sem dar explicações, é ruim estar no lugar de quem faz isso ou quem está ali vivendo a situação, mas as coisas acontecem, o ser humano é imprevisível e explicações nem sempre são bem vindas.

Nem mil verbos podem explicar a alma humana e seus movimentos, nem mil frases decifram o que sentimos, muito menos explicam o porquê de nossas ações.

E pode parecer cruel, mas é honesto dizer que não vai dar explicações porque não sabe explicar. Ponto. É simples assim.


Iara De Dupont


26 junho 2017

Dá pra pegar leão no colo?


Algumas histórias se repetem, mas com o passar do tempo nossa interpretação muda, começamos a perceber aspectos que ignorávamos e abrimos os olhos para detalhes que não pareciam importantes antes.

Há uns anos uma amiga se casou com um homem incrível, mas o casamento durou menos de três anos.

Eu tive a impressão na época que ela deveria estar escondendo alguma coisa, porque sempre disse que amava o marido, mas tinha algo errado no casamento.

De fora parecia certo, ele a tratava bem, a vida era mansa, mas ela não estava à vontade e pediu o divórcio, mesmo alegando que ele era o amor de sua vida.

Sei que existem segredos que não contamos a ninguém porque nem nós acreditamos no horror que são, algumas frases não conseguimos nem formular na mente, quanto mais falar disso.

Pensei que minha amiga estava nessa posição, talvez alguma coisa assustadora tinha acontecido no casamento e ela não queria falar sobre o assunto.

O marido nunca entendeu o pedido de divórcio e saiu do casamento espumando de raiva, desceu do patamar do amor ao mais profundo ódio. Era tão forte o que ele sentia que saiu da casa com a roupa do corpo, nunca mais quis voltar, nem brigou por nada.

Há pouco tempo aconteceu a mesma coisa com a irmã da minha amiga, se casou com um rapaz, aparentemente ótimo, e não durou muito.

Tenho visto umas situações assim e agora não penso mais em segredos nem informações ocultas, penso que pode ser outra coisa, de novo bato na mesma teoria, o que foi ensinado as mulheres, a maneira como fomos e somos construídas socialmente.

Estamos acostumados como sociedade a falar sobre relacionamentos abusivos, violência doméstica e homens descontrolados, mas existe uma parcela mínima, talvez abaixo disso, de relacionamentos que ficam desconfortáveis e estranhos por um outro elemento, e ninguém fala sobre isso, até porque é um assunto invisível.

Mas o ponto é o seguinte, nós, mulheres, sabemos receber amor? 

Não. Ninguém nos educou para receber coisas boas, principalmente em relacionamentos e nós agimos de acordo ao que nos ensinam, não ao que é certo ou errado.

A grande maioria das mulheres cresce em ambientes violentos, onde a autoridade masculina não pode ser questionada e os homens têm seus meios de conseguir o que quiserem, seja no grito, intimidação ou violência física. E quem pode aprender a receber amor assim?

Ninguém aprende, por isso tudo vira lixo.

Os psicólogos tecem milhões de teorias sobre o assunto, garantem que mulheres que cresceram com pais violentos repetem a mesma violência com os parceiros, mas eles ignoram o mais importante, as mulheres não conhecem a violência apenas em casa, mas em todos os lugares, recebemos tudo dos homens, menos amor.

Desde pequenas estamos cercadas por homens que nos desprezam, sejam professores, colegas de escola, depois no trabalho, somos assediadas e acossadas nas ruas e ensinadas a temer a presença masculina.

Por isso pode ser tão estranho de repente se apaixonar um homem que saiba dar amor, nos parece coisa de outro mundo e fica desconfortável.

Passei por essa situação algumas vezes, conheci um homem amoroso, mas minha mente não conseguia decifrar nem entender seu comportamento, por isso eu me sentia deslocada na relação. Fui à psicólogas que me garantiram que isso tinha cura, era apenas reflexo da minha educação, aquela famosa síndrome de algumas mulheres que só se apaixonam por canalhas.

Durante anos pensei que eu era assim, estava errada, achava que tudo era culpa do meu ambiente familiar, por isso eu escolhia os homens errados.

Levei anos para perceber que os homens ''errados'' me cercavam e não envolvia relacionamentos, eram professores, amigos, desconhecidos, por todos os lados conheci apenas a violência masculina, então como poderia ensinar meu cérebro a receber amor de um deles? É possível convencer a mente de que isso existe? Não seria como dizer que se você tiver sorte pode encontrar um leão que te deixe pegar ele no colo? 

Quando entendi toda a violência masculina que me cercava percebi que não era eu a errada, e que até nosso modo de amar precisa ser modificado, porque aprendemos errado.

Hoje entendo quando uma mulher diz que se sentiu desconfortável com um homem amoroso, até porque agora eu navego na desconfiança, quando vejo um assim fico logo pensando em que intenções esconde, fruto da cultura violenta que cresci, duvido de todas as 'fofices' masculinas.

Mas aprender a receber amor é uma das coisas mais importantes do mundo para uma mulher, porque não sabemos fazer isso de nenhum jeito, estamos tão condicionadas a sempre dar amor, que receber parece coisa de outro mundo.

Quando algo assim acontece não penso mais como um dia me disseram para pensar, diziam que eu não merecia amor, por isso acabava sem saber o que fazer quando recebia. Hoje entendo que não era questão de merecimento, mas de aprendizado, eu não aprendi a receber amor do homens porque eles nunca aprenderam a dar.

Eu tinha vergonha antes quando as pessoas diziam ''nossa, essa Iara só se apaixona por canalhas'', mas agora penso que quem deveria sentir vergonha é o mundo, por criar seres como os homens que não sabem amar e só querem receber amor. É a sociedade que deveria se envergonhar de viver em um modelo que aceita a violência masculina como algo natural.


Muitas mulheres têm que aprender a receber amor e não se sentirem desconfortáveis com isso, mas eu diria que todos os homens deveriam aprender a dar amor, pelo menos respeito.

O que vivemos agora é consequência de todos os erros na educação de todos, a tolerância com a violência masculina, a exigência de submissão às mulheres, os relacionamentos tortos e abusivos.

Amor é uma energia vital, uma força divina, mal utilizada pelos humanos, desperdiçada por todos.

E no fundo é um alívio dizer que não sou mais aquela garota com diagnósticos de psicólogos nas costas, aquela que amava canalhas. Sou uma mulher normal em um mundo doente.


Iara De Dupont






05 junho 2017

Não é sobre o queijo



Poucas coisas me surpreendem nos relacionamentos, mas ainda assim acontecem. 
Uma delas é a tolerância de algumas mulheres em relação a má educação de seus maridos e namorados. Já gastei litros de tinta falando sobre esses homens grossos e sem noção, que são a  maioria.

É parte da cultura que vivemos dizer que ''homem é assim mesmo'', é o jeito deles de reagir a vida, falam de maneira curta e tosca e mulheres são educadas para entender e tolerar essa maneira de ser.

Desde pequena escuto que se quero educação, então que procure mulheres, homens são diretos.

O que ainda me choca é ver a quantidade enorme de mulheres que aceitam conviver com seus maridos ou namorados, que as tratam na ponta do pé, mas todos dizem que eles têm um bom coração, o jeito rude é porque são homens.

E atrás da má educação existe um conjunto de fatores, desde um homem mal educado, até a insegurança e o fato de não ser maduro para viver uma situação, então reage no grito.

Vejo muito isso com amigas, seus namorados são grossos, mas me passam a impressão de que carregam milhões de complexos e não sabem lidar com a vida adulta, muito menos a vida a dois.

Uma amiga se casou com um designer, um rapaz encantador, mas já veio com aquela sensação da nova geração, ou talvez seja algo de sua idade, mas pensa ser maior que todos, e não precisa de um emprego, ele pode se virar sozinho, pode se construir sem estar dentro do sistema.

Concordo com ele, é talentoso, e sim, pode desenhar e criar fora do sistema, o problema é que ele esqueceu que até para isso é necessário ser maduro e pensar bem as coisas. Mesmo sabendo que não tem entrada de dinheiro fixa, pediu a namorada em casamento, uma ingênua que aceitou.

No começo os pais dele ''ajudavam'', perceberam que seria impossível levar uma casa apenas com o salário da moça, e resolveram dar uma mesada ao moço. Durante esse começo, o moço foi um encanto, o melhor marido do mundo.

Tudo parecia bem, até que algo causou uma irritação no pai do rapaz, que decidiu cortar a mesada. 

Minha amiga disse que não faria muita diferença, os pais dele já tinham dado um apartamento, e o salário dela poderia cobrir os gastos, até o marido se estabelecer um pouco e ter uma cartela maior de clientes.

Mas esbarram no queijo. No queijo. O rapaz é como um rato solto, louco, fanático por queijo, não consegue ficar sem queijo, precisa comer todos os dias, só que pela educação que recebeu está acostumado a queijos finos e exóticos, daqueles que custam duzentos reais o quilo.

Durante um tempo o rapaz jogou suas compras no cartão de crédito, mas em algum momento arrebentou e não deu mais.

Um dia minha amiga estava fazendo compras no supermercado e viu um queijo mussarela em oferta e resolveu comprar, pensou que agradaria o marido, na falta de queijos melhores pela situação econômica, o mussarela poderia ajudar.

Ela chegou em casa e disse à ele, contou sobre o queijo. O que ele fez? Explodiu! Disse quem nem os porcos comem esse queijo!

Com quem a moça pensa que se casou? Com um idiota que come queijo mussarela? Quem come queijos, conhece queijo, entende de queijos, sabe que o mussarela se joga aos porcos! 

Ah, sim, eu não sabia, mas ele disse que é assim.

Minha amiga disse que ele (aos gritos) respondeu:

-Tudo bem que você não entende nada de queijo, mas já está comigo há tempo suficiente para saber que o queijo mussarela é uma merda! 

E a coisa foi aumentando, chamou a esposa de ''suburbana'', ''classe média que acha que só existe queijo mussarela e queijo prato'', disse que ela tinha ''refinamento de supermercado'', no pior dos casos se come provolone, na miséria total roquefort! Mas mussarela e seu ar ''classe média baixa'' não se jogam nem aos porcos!

Não precisa ser rico, disse o rapaz, precisa ser refinado e sua esposa ainda não tinha aprendido a diferença entre um brie e um gorgonzola!

É, a moça é classe média, ainda estudou em colégio particular, mas nunca foi à França, já o marido ia uma vez por ano, nas feiras de queijo. A  moça está acostumada a comprar queijo em padaria e não daquelas finas, mas padaria de esquina, compra o queijo, o presunto e o pão.

Mas o marido também não perdoou o pão, disse que só ''faltava'' ela ter comprado pãozinho francês, o símbolo máximo da pobreza e falta de refinamento!

A moça ficou magoada, bem chateada mesmo, e contou à sua mãe, que a consolou dizendo que ''homens são assim'', dizem as coisas sem pensar, mas não tem nada a ver com o que sentem, ele a ama, nunca quis ser mal educado, mas é homem e eles não sabe se expressar (nesse caso quem seria o porco que come mussarela?).

Como tem um bom relacionamento com a sogra, disse à ela o que tinha acontecido, a sogra respondeu que entendia, mas era importante a nora entender que seu marido está se sentindo pressionado, não tem nada a ver com o queijo, o rapaz está frustrado pela falta de dinheiro, mas é uma ótima pessoa (obrigado por avisar, eu estava na dúvida).

Inacreditavelmente, a moça não saiu do casamento, imagina abandonar um marido apenas porque ele a chamou de suburbana, sem refinamento e a acusou de comprar queijo que se joga aos porcos.

Ela ficou ali, continua no mesmo lugar. Pegou trauma do queijo mussarela, começou a prestar mais atenção em outros tipos de queijo, levanta as orelhas quando alguém fala sobre queijos, Deus a livre de ter outro enfrentamento com o marido por culpa de um queijo.

E venho eu, humildemente dizer o seguinte, homens não assim, não agem como ele agiu, quem age dessa forma é um babaca, idiota, mimado, e imaturo, incapaz de lidar com as mazelas da vida doméstica.

Ah, esqueci de contar um detalhe. Bom, ficou tão chato a história do queijo mussarela, que seu pai retomou o apoio econômico, voltou a dar mesada, entendeu como era injusto deixar seu filho comendo queijo mussarela, aquele que se dá aos porcos.

E por que uma mulher aceita e aguenta esse tipo de comportamento? Porque escuta que homens são assim.

Não são e chega de cimentar essa ideia, quando o homem é idiota merece ser abandonado.

E avisei minha amiga, que se prepare pelo o que vem pela frente, se o rapaz já é imaturo para lidar com a falta de queijo no café da manhã, o que vai ser lá na frente quando a vida apertar? Porque isso é um fato, a vida sempre aperta, de um jeito ou de outro.

Minha amiga respondeu ''você nunca perdeu a cabeça e disse algo que não queria? É justo ser julgada por isso?''.

Ah, mas foi um pouco demais né? A esposa pensa nele, gasta dinheiro e ainda escuta desaforos e ofensas? 
Uma coisa é se jogar no chão, frustrado e dizer ''vou comer o queijo mussarela, mas queria mesmo o provolone, paciência, assumo meus erros, assumo minha vida e o fato de não ser um bom provedor, mas mantenho minhas escolhas. E graças a Deus tem um pão francês para acompanhar, é melhor essa comida de classe média baixa do que passar fome''.
Outra coisa é ofender a esposa, chamá-la de suburbana, mentalidade de padaria, gosto de mulher de bairro, compradora de lixo e tal....

Bom, ele é um canalha, e vai se revelar pior, eu já avisei.

E vou morrer sem entender porque mulheres toleram esses homens, tentam agradar a esses doentes, relevam seus ataques e chiliques, e ainda pensam neles como ''homens de bom coração''.

Não me interessa se tem um bom coração ou não, o que interessa em um homem é como ele te trata, e se não for com respeito, amor e devoção, não serve de nada.

E chega dessa história de ''homens são assim'', estamos apenas dando licença social para que continuem agindo como moleques e não assumam a responsabilidade da vida que se meteram, porque até onde sei ninguém obriga um homem a se casar.

E mulheres, por favor, se respeitem, não aceitem esse tipo de comportamento, não caiam nessa armadilha de achar que ele perdeu a cabeça, mas é uma ótima pessoa. Não é, homens imbecis não são boas pessoas e ponto.

E não é sobre o queijo. É sobre não permitir mais ser tratada dessa maneira, porque teu marido pode saber muito sobre queijos, mas não sabe nada sobre como tratar uma mulher, isso reduz ele a um porco, daqueles que comem queijo mussarela.

Iara De Dupont

02 abril 2017

O dia que mudei de lado



Há uns anos um Romeu terminou o namoro comigo. Eu estava apaixonada, apesar de saber que o relacionamento não tinha futuro.

Meses depois encontrei o Romeu e sua nova namorada. O que senti ali é impossível de descrever, como se meu coração tivesse quebrado em mil pedaços. Passei a noite toda analisando sua nova namorada, me mordendo de inveja, ciúmes e raiva.

Gastei um bom tempo na vida com ódio dessa moça,  me perguntando o que ela tinha.

Mas eu ignorava e escondia os motivos pelo fim do namoro, as coisas tinham desandado entre nós porque eu descobri que Romeu era viciado em pornografia e não quis lidar com aquilo.

Eu sabia que ele era boa pessoa, mas seu vício ia contra meus valores e me mostrava uma face assustadora dele, até onde se pode confiar em um homem viciado em pornografia? Se eu tivesse uma filha com ele, até onde eu poderia acreditar que ele seria um bom pai?

Viciados em pornografia são antes de tudo, uns machistas, que mesmo negando, acreditam que a mulher serve como objeto, não conseguem olhar para uma mulher como ser humano, é apenas uma boneca para eles.

Ocultei a verdade de mim e por um bom tempo odiei a nova namorada de Romeu, minha alma se partia em dois quando os via juntos.

Não tive boa vontade com ela, nem tentei ser simpática.

Eu agia assim porque não conhecia o feminismo e o lado das mulheres não tinha meu apoio naquela época, a culpa da minha dor era da nova namorada e ponto, eu não via nada além disso.

E tive essa mesma sensação com outras namoradas de ex-Romeus, me sentia menor, diminuída e com o sentimento de que elas deveriam ser melhores do que eu, porque quem estava se mordendo de ciúmes era eu, não elas.

Eu desmontava a situação, mas nunca os Romeus.

De repente minha vida começou a mudar, quando descobri o feminismo e percebi que eu vivia em um ciclos de relacionamentos abusivos, assim que percebi isso comecei a sentir uma enorme empatia pelas novas namoradas de Romeu, porque percebi que elas eram tão vítimas quanto eu e estavam entrando no mesmo poço que eu tinha entrado e a duras penas consegui sair.

Recentemente apareceu na minha vida um ex-Romeu, voltei a me encantar com ele, para logo me desencantar. Não era a pessoa que amei, não sei quem era, mas eu não conhecia sua nova personalidade e acabamos entrando em um conflito que levou a um fim triste, deprimente e ofensivo.

Fiquei muito chateada com ele, achei que agiu de má fé e poderia ter evitado tanta tensão.

Mas poucos dias depois fiquei sabendo que ele estava com outra mulher, o que me levou a pensar que criou uma situação ruim para se livrar de mim e ficar com a outra.

Pensei que morreria de raiva da outra, mas em vez isso senti uma enorme pena, quase uma dor. Poxa, ela parece tão meiga e ele é tão tosco emocionalmente, que mesmo sem querer posso imaginar o pior.

Foi a primeira vez na minha vida que vi a situação por outro ângulo, que percebi que tinha mudado de lado, eu não via mais o Romeu como um santo e sua nova namorada como a ''bruxa'' da história, agora é diferente, posso perceber o abuso e me dar conta que esses Romeus doentes trocam de namoradas, mas tratam todas da mesma maneira abusiva, porque eles são assim.

Mas tive que mudar de lado para entender que se eu fui vítima de um homem a abusador, elas também vão ser. Fico com uma vontade louca de mandar mensagens e dizer que tomem cuidado, que observem, esses homens não mudam.
Ver algumas apaixonadas aperta meu coração, porque sei como serão tratadas e exploradas.

Antes de mudar de lado eu via tudo de maneira simplista, Romeu terminava comigo e ia atrás de outra namorada, uma maldita, mas ao perceber a dimensão de tudo me dei conta que a história é outra, é sobre um Romeu abusivo que termina comigo e vai atrás de outra mulher para abusar e magoar.

Mulheres, mudem de lado. Percebam que estamos vivendo do lado errado e vendo os Romeus como os santinhos e nós, mulheres, como as más. 
Só que a maldade e o abuso estão do lado deles, o lado de lá.



Iara De Dupont

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